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sexta-feira, julho 10, 2015

Chorar faz bem

 Autor: Gerson Borges

 Foto de Kao Souza.  
                                                  


“Chorar faz bem. Limpa os olhos, lava a alma, deixa o peito mais leve.
Há choro ao nascermos e choro ao morrermos.
 E muito choro entre as duas pontas da linha da nossa vida precária, tão breve existência “ desse lado do Jordão ”. Por que choramos?
O choro, dizem em uníssono , psicólogos e médicos, antropólogos e religiosos , é uma resposta natural aos estímulos emocionais.
Por isso choramos de alegria, de tristeza, porque sentimos falta - de alguém,
porque fomos abandonados - por alguém.
E é claro que o choro é igualmente uma reação humana a dor física.
Lembra como chorávamos quando martelávamos um dedo ou ralávamos o joelho nos tempos aventureiros
 (e perigosos) de moleques de rua,
 a maravilhosa , indomável e inesquecível infância ?
Mas , de repente, os olhos se revelam secos.
 Do nada - ou, a bem da verdade que nos escapa, inconsciente - do tudo, a aridez dos olhos.
Olhos que lacrimejavam à toa, olhos que marejavam por pouco, lubrificando a visão do mundo do homens e dos homens do mundo, olhos que se permitiam ser olhos , posto que um olho que não conhece lágrima é feito um coração que não acelera.
A propósito , olhos e coração estão profunda e inevitavelmente conectados.
O olho é extensão do coração. A ponta visível do coração é olho. Um afeta o outro.
O que pomos diante dos olhos afeta o que está dentro do coração.
O que está dentro do coração atinge “ as janelas da alma”, os olhos.
Ontem uma amiga me contou sobre sua dificuldade de “ chorar diante de Deus ”.
 Entendi que ela se referia à oração, aos exercícios devocionais: ler a Bíblia ou outros livros inspirativos, praticar disciplinas espirituais tais como a adoração , meditação, silêncio e solitude orante - ficar só e quieto com Jesus. Isso é a um só tempo um problema e uma oportunidade.
É problemático pois revela o estado dos afetos: Deus já não lhe toca. Deus já não lhe afeta emocionalmente.
E, se uma religião que se constrói sobre sentimentos é perigosa, uma espiritualidade que os excluí é destrutiva!
‘É mais fácil esfriar um fanático do que ressuscitar um cadáver’, afirmou o Irmão André.
A questão não está nos olhos, mas no coração. Ainda que a emoção traga em si um inquestionável componente involuntária ou inconsciente , é muito bem possível, desejá-la , intencionando certos afetos.
Assim como amantes , um casal que se ama e se deseja, pode ambientar seus sentimentos e emoções, com lembranças , presentes, lugares , jantares e luz de velas , podemos ambientar nosso encontro com Deus de modo que seja de fato um encontro. Pessoal. Não apenas uma experiência do intelecto , mera formalidade religiosa, oca, seca , sem sinal de vida e paixão.
A secura dos olhos é, por outro lado, rara oportunidade de revisão de vida. Perguntas importantes, reveladoras e terapêuticas devem ser feitas : ‘o que me tornou assim, tão duro, tão insensível ?’
Quando me sinto trilhando essa caminho desértico , ajuda muito “ a leitura do mundo ”, na expressão famosa de Paulo Freire. Contemplar os pobres, contemplar a miséria, contemplar os desvalidos, os desprovidos , os marginalizados. Olhar para o outro, compassivamente, pode ajudar a (re) encontrar a alma, contemplativamente. 

Dois poetas que admiro podem nos socorrer nessa síndrome dos olhos ressecados:
 - Cecilia Meireles, numa confissão , Jorge Camargo, numa oração.”